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sábado, 14 de novembro de 2009

Processo Kafkiano

Em 1925, um amigo pessoal de Franz Kafka, Max Brod, publicava o livro O Processo, após morte do autor. Foi adaptado ao cinema por Orson Welles, em 1962. De há uns anos para cá, Portugal vem tentando de forma muito bem sucedida, adaptar a obra à realidade política. Se Kafka estivesse vivo, estaria na FNAC a dar autógrafos.

Em síntese, a história d'O Processo tinha como personagem principal Joseph K. que é acusado de um crime que nunca sabe qual é. Joseph é atirado de instituição para instituição, num moroso, inconclusivo e incompreensível processo. Fumo branco, mas não habemus crime ou, tão-pouco, uma sentença objectiva.

Senão, vejamos, em jeito de analogia: Fátima Felgueiras foi imputada de 23 crimes de corrupção e financiamento ilegal da secção local do Partido Socialista. Refugiou-se no Brasil, gerou-se um alarido, recorreu-se e acabou em pena suspensa. Um Saco Azul roto, portanto.

Paulo Portas, líder do CDS/PP, antigo ministro da Defesa, afogou-se num caso de corrupção relativo a, imagine-se, submarinos. O Ministério Público nunca encontrou os 30 milhões de euros que deverão ter sido utilizados para pagar comissões. Nunca se provou se esse dinheiro foi ou não utilizado para financiamento partidário. A verdade ainda não veio, literalmente, à tona.

Ferreira Torres, Apito Dourado, Valentim Loureiro, Casa Pia, Cova da Beira (e podia ficar aqui mais umas horas e escrevia um tratado) são alguns dos nomes que materializam o carácter kafkiano da justiça em Portugal.

Mais recentemente, o processo Face Oculta que tem tanto de oculto como a casa do Big Brother. Certo é que a justiça é sempre um facto político e quanto maior for a envergadura do mesmo e a visibilidade dos intervenientes, maior é a propensão para ir ao encontro da 'coisa', divulgá-la, insinuar, presumir. A hierarquia fala para evitar especulação e porque alguém tem que se responsabilizar pelas fugas de informação 'quietas, mudas e secretas'.

Porém, a justiça é como a catedral de Gaudi, em Barcelona: tem várias capelinhas e tudo é criado e recriado à medida da imaginação de quem a vê. Não há um porta-voz judicial, um 'órgão' que fale de forma categórica e objectiva o que, aliado à falta de cultura dos portugueses e às decisões editoriais cinzentas dos media, gera uma poeira dispensável, um desvio de órbita do percurso que estes casos deveriam percorrer.

Há quinze arguidos no caso e os jornais abrem com José Sócrates, o que constitui um desvio diametral ao que deveria ser a notícia do dia. Se num dia vem alguém na capa de um jornal a alegar x, no dia a seguir sai outro alguém a responder a x. Os jornais passaram a ser pombos correios de picardias e o assunto basilar fica sentado no banco dos suplentes.

O problema não é haver pressões, é haver gente pressionável e impressionável. Ou se mudava o regime político e, consequentemente, o sistema judicial, o que me parece pouco plausível ou se obrigam os jornalistas a revelar as fontes, o que também levanta muitas questões.

Eles escutam, escutam e quem os ouve somos nós.

* Imagem: O Mito de Sísifo - http://inquietudes.wordpress.com/2007/02/24/el-heroe-absurdo/

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Ainda sobre professores


É uma escola, fica no distrito de Viseu, mais não devo dizer. Acredito que muitas existirão assim, noutros distritos, mais não posso adivinhar. São 700 alunos numa escola construída para 300. Como outras tantas, está sob o jugo do famigerado programa de avaliação dos professores, a tuberculose do ensino português. Como tantas outras, para além dos 700 alunos, tem níveis de burocracia muito pouco proporcionais à quantidade de árvores que existem em Portugal. Mas nesta escola, o mais preocupante, não é a avaliação, nem é a burocracia.


Soube, por um docente que lá trabalha, que há esforços no sentido de convencer os professores a ficarem nos recreios a vigiar os alunos para que estes não entrem em conflitos (note-se que nem é uma escola problemática). Para além desse pedido tão inquietado, os coordenadores desejam que os docentes fiquem na sala de aula com os alunos enquanto... o autocarro não chega! Este cenário remete-me para aquelas placas do Zoo, em que podemos encontrar palavras que ‘gritam’: Perigo! Não alimente o macaco! Não obstante alguns pormenores, é quase, quase a mesma coisa. Os alunos ficam enclausurados nas salas, caso contrário o risco pode ensombrar quem com eles se cruza.


Pensarão eles que estão a criar crianças obedientes, dóceis e responsáveis. Claro que brincar sob vigilância dá sempre azo ao desenvolvimento da criatividade, da espontaneidade e da independência de um indivíduo. Claro. Pedagogia perversa. Há um provérbio chinês que diz, sabiamente, que se decidirmos brincar, temos que ter presente qual é o jogo, quais são as regras e qual é a hora de desistir. O jogo e as regras deveriam pertencer às crianças, e a hora de desistir, de as deixar sozinhas, aos professores. Passa-se o contrário. Os professores decidem o jogo e as regras, pois que o simples facto de estarem presentes lança um espectro sob qualquer actividade que a criança, sabendo-se vigiada, quer desenvolver, e assim, desiste a criança que, tal como uma máquina vai fazer aquilo que alguém quer, como se, de repente, lhes fosse instalado um anti-virus. É lamentável que os professores que pretendem instaurar essas regras, não vejam a relação vital entre aprender e brincar. Falei deste caso, muito concreto, cansada das generalizações dos discursos políticos muito bem decorados.


O professor que teve estas ideias tão iluminadas não deve ter tido uma infância muito afortunada, mas ainda assim, e se jogou algum jogo quando era pequeno, deve saber que esta atitude...


... é batota.

* Imagem de Blasius Erlinger - Fonte:http://www.2c.com.au/photograph.cfm?ArtistID=3&showPhoto=8&CategoryID=22

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Obama mais longe do céu

Tocqueville, político e historiador proeminente, referiu que a religião é historicamente a expressão mais natural e primária das esperanças, ímpetos e medos do ser humano. A fenomenologia é, muitas vezes, explicada em termos de teologia. No período eleitoral, a figura de Barack Obama surgiu com laivos metafísicos. O Times classificou-o como ‘Great Redeemer’ (Cristo Redentor), escreveram que, depois de Kennedy, os Estados Unidos estavam, agora, a prostrar-se em frente ao Salvador, título também atribuído ao presidente pela revista Visão. A Spiegel On-line associavam Obama a um milagre americano. O ‘Yes, we can’ está para Obama como o ‘Eu sou o caminho, a verdade a vida’ está para Jesus Cristo.


Nove meses depois, começamos a encontrar na imprensa, com alguma frequência, o desencantamento dos americanos relativamente a Obama. Acontece que o ser humano tem uma necessidade inflexível do imediato. Vivemos no mundo dos MEOS e ZONS, da fast-food, dos TWITTERS que podem ser actualizados a partir do telemóvel, quando e onde quisermos. A política, por enquanto, ainda não vem servida num pacote happy meal, e o brinde também não é Barack Obama. As pessoas querem ser salvas e, cegas por essa urgência, criaram uma imagem mental messiânica do presidente, porventura uma forma de congratular a sua mensagem de mudança. Creio que todos, de algum modo, caímos nesse erro. Todavia, uma coisa é sermos idealistas, outra é sermos cidadãos conscientes, uma coisa é sermos inspirados por ele, outra é esperar que Obama ‘formate’ o mundo.


Durante a sua campanha, certificou, entre outras coisas, que os Estados Unidos iniciariam uma política externa mais aberta, dialogante e incisiva, traçando, assim, a bisturi, um corte profundo com as administrações anteriores, mais imperialistas. Os esforços têm sido nesse sentido. Fechou Guantanamo, aprovou em reunião com o Conselho de Segurança das ONU, a redução de poder nuclear de países dotados desse armamento, prometeu a retirada de todas as tropas no Iraque até Agosto de 2010. Terá feito alguma coisa de que se arrependeu. Virou algumas páginas, mas ainda não mudou de livro, mas uma história bem contada, volta muitas vezes atrás. Afinal, passaram apenas nove meses, a duração do período de gestação.


* Imagem de 'Saviorcandidate' - Fonte: http://www.flickr.com/photos/29365858@N08/2736350863/

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Para qualquer 'www' anónimo

Faço este blogue no âmbito da disciplina de Atelier de Multimédia, em jeito de decreto de morte às letras no papel que foram tantas, no ano passado, em Jornalismo Impresso. Desengane-se esta minha perspectiva saudosista do tema.

Comprometo-me, agora, com um tipo de habilidade muito prática aplicada no mundo contemporâneo. Mundo que pede ao jornalismo e aos jornalistas que estendam as suas novidades ao mundo cibernético, que tem no quase infinito, a ‘morte anunciada’ da sua sempre inacabada finitude, envolvida na parafernália de matérias que se perdem num qualquer ‘www’ anónimo. Como anónima e inacabada é a natureza das coisas, aos olhos de biliões de pessoas. Uma espécie de ilusionismo. Algo que existe, mas não existe. Algo que se limita na infinitude de idiotas crenças.

Mas não há – ao menos hoje, no chamado mundo civilizado – mortes decretadas. Por isso, ou também por isso, decidi-me por baptizar este espaço recém-nascido de ‘Acta Diurna’. Em 131 a.C., os romanos afixavam nas paredes um documento com este título. Mas o mundo ‘arredondou-se’. Cresceu para fora de si. Não tem limites. Só por isso falar on-line faz do mundo o meu público potencial.

Fanfarronice? Nem por isso. Foi-me proposto utilizá-lo para ‘esmiuçar’ temas actuais, de forma opinativa ou não, mas, sobretudo espicaçar os fortuitos leitores em termos sensitivos, através do recurso ao audiovisual, campo no qual sou perfeitamente leiga. E talvez por isso.. fica a promessa de não me/vos desiludir.

Creio que será uma oportunidade fortuita no que toca a tirar o açaime aos temas mais controversos, pois que, até então, a maior parte dos textos que escrevi foram estritamente informativos. Assim o espero. Porém, chegou a altura de ‘teclar’ outros desafios.

* Caricatura por André Carrilho - Fonte: www.andrecarrilho.com