
Em 1925, um amigo pessoal de Franz Kafka, Max Brod, publicava o livro O Processo, após morte do autor. Foi adaptado ao cinema por Orson Welles, em 1962. De há uns anos para cá, Portugal vem tentando de forma muito bem sucedida, adaptar a obra à realidade política. Se Kafka estivesse vivo, estaria na FNAC a dar autógrafos.
Em síntese, a história d'O Processo tinha como personagem principal Joseph K. que é acusado de um crime que nunca sabe qual é. Joseph é atirado de instituição para instituição, num moroso, inconclusivo e incompreensível processo. Fumo branco, mas não habemus crime ou, tão-pouco, uma sentença objectiva.
Senão, vejamos, em jeito de analogia: Fátima Felgueiras foi imputada de 23 crimes de corrupção e financiamento ilegal da secção local do Partido Socialista. Refugiou-se no Brasil, gerou-se um alarido, recorreu-se e acabou em pena suspensa. Um Saco Azul roto, portanto.
Paulo Portas, líder do CDS/PP, antigo ministro da Defesa, afogou-se num caso de corrupção relativo a, imagine-se, submarinos. O Ministério Público nunca encontrou os 30 milhões de euros que deverão ter sido utilizados para pagar comissões. Nunca se provou se esse dinheiro foi ou não utilizado para financiamento partidário. A verdade ainda não veio, literalmente, à tona.
Ferreira Torres, Apito Dourado, Valentim Loureiro, Casa Pia, Cova da Beira (e podia ficar aqui mais umas horas e escrevia um tratado) são alguns dos nomes que materializam o carácter kafkiano da justiça em Portugal.
Mais recentemente, o processo Face Oculta que tem tanto de oculto como a casa do Big Brother. Certo é que a justiça é sempre um facto político e quanto maior for a envergadura do mesmo e a visibilidade dos intervenientes, maior é a propensão para ir ao encontro da 'coisa', divulgá-la, insinuar, presumir. A hierarquia fala para evitar especulação e porque alguém tem que se responsabilizar pelas fugas de informação 'quietas, mudas e secretas'.
Porém, a justiça é como a catedral de Gaudi, em Barcelona: tem várias capelinhas e tudo é criado e recriado à medida da imaginação de quem a vê. Não há um porta-voz judicial, um 'órgão' que fale de forma categórica e objectiva o que, aliado à falta de cultura dos portugueses e às decisões editoriais cinzentas dos media, gera uma poeira dispensável, um desvio de órbita do percurso que estes casos deveriam percorrer.
Há quinze arguidos no caso e os jornais abrem com José Sócrates, o que constitui um desvio diametral ao que deveria ser a notícia do dia. Se num dia vem alguém na capa de um jornal a alegar x, no dia a seguir sai outro alguém a responder a x. Os jornais passaram a ser pombos correios de picardias e o assunto basilar fica sentado no banco dos suplentes.
O problema não é haver pressões, é haver gente pressionável e impressionável. Ou se mudava o regime político e, consequentemente, o sistema judicial, o que me parece pouco plausível ou se obrigam os jornalistas a revelar as fontes, o que também levanta muitas questões.
Eles escutam, escutam e quem os ouve somos nós.
* Imagem: O Mito de Sísifo - http://inquietudes.wordpress.com/2007/02/24/el-heroe-absurdo/

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